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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Coisas de ser piegas VI


Às vezes encontramo-nos com a cabeça nas mãos. Tudo o que poderia ter corrido bem correu mal. O mundo, que era igual à vida, afasta-se de repente. Distancia-se e continua a existir, como se nada tivesse a ver ou a haver connosco, como se fizesse questão de mostrar a independência dele, mundo, que não existe só porque nos damos conta dele. A má notícia é má, mas a pior, para quem cá está, é a pessoal. A minha pessoa é a Maria João e a Maria João passa mal. Nem o amor nem a sabedoria médica a podem salvar. Só uma conjunção das duas coisas, mais um acrescento de milagre. O cabrão do cancro alastra-se. Exterminado no pulmão ou na mama, foge para o cérebro, onde se refugia e cresce. Forma uma força da morte, aproveitando as barreiras antigas entre o sangue e o cérebro, que infiltra conforme lhe apetece. Hoje, domingo, é o último dia em que estaremos juntos, dois amores, felizes há quase vinte anos. Amanhã, logo às nove da manhã, estaremos na consulta dos excelentes neurocirurgiões do Hospital de Santa Maria, onde nos avisarão das complicações possíveis. Obama deveria inspirar-se na perfeição clínica e humana do serviço de saúde português e francês. Mas a dor não diminui. Nem a tristeza abranda. Vai morrer o meu amor. Não vai. Como o meu amor por ela, nunca há-de morrer. As coisas acontecem sem acontecer o pensamento nelas. A alma, o coração e a cabeça são coisas diferentes. Que se dão bem. E são amigas. E deixam de ser quando morrem.

Miguel Esteves Cardoso, para a mulher, Maria João, 29.04.2012, in jornal Público



Não o conheço pessoalmente. Mas quem não o conhece? Quem nunca o leu? Ao meu lado, aqui colada na parede junto ao computador, durante estes anos todos, tenho uma crónica escrita por ele, uma minimini crónica, que tem como título 5 de Setembro, o dia dos meus anos, e com tantas, tantas, tantas coincidências que sempre suspeitei ter sido escrita para mim (bem, é estranho mas sim).
Não o gosto de ver a sofrer, pelo seu grande amor. Mas tu sempre soubeste que o amor era fodido, não foi? O amor, a vida, o destino, o incontrolável. Mau e maravilhoso simultaneamente.
Sei que há muitos homens a passarem pelo mesmo. Sei que há muitas mulheres a sofrerem pelos seus homens. Sei que há muitas mães e pais a gritarem pelos seus filhos. Isto é por todos eles. Por todos nós.

Sei que ela já foi operada, a sua Maria, e que foi para casa. Sei que vai ser difícil, muito, muito difícil vencer esta guerra. 
E tu escreveste(me): O pior é que sempre que te vais embora, levas a minha vida contigo.
Espero, Deus, que ainda não a leves. Porque há amores assim. E sim, por amor se vive e por amor se morre.



Pós - operatório

  “Voltámos para casa anteontem [sexta-feira], nesse dia sagrado. Não há no mundo maior delícia do que a normalidade. Cada palavra da Maria João soa-me a música amada. Nos livros avisam que a remoção de tumores cancerosos do cérebro pode provocar alterações de personalidade.
Eu tinha medo que ela deixasse de ser a Maria João que eu amo. Mais medo ainda tinha que ela deixasse de me amar. A primeira vez que a vi, poucas horas depois da cirurgia, no remanso dos cuidados intensivos, perguntei-lhe se ela me reconhecia. E ela recuou a cabeça ligada, fez uns olhos de surpresa repugnante e perguntou, com convencimento: “Mas quem é o senhor?”
Nem sequer foi o sentido de humor a primeira coisa a regressar. Nunca se foi embora. A Maria João não recuperou: manteve-se. O milagre não lhe era exterior. O milagre é ela. Ela e todas as pessoas de quem ela gosta, que gostam dela.
Eu bem que tento guardá-la como um segredo. Mas só estou bem, quando tenho a sorte de ouvi-la e a vê-la e a vivê-la. Escrever sobre ela é a coisa mais fácil que faço: é uma preguiça e um prazer, como se conseguisse enganar quem me lê. É virar as costas ao mundo, que vai tão mal. Mas que é um mundo que ainda contém a Maria João, a pessoa que eu amo, que ainda aceita o amor que lhe tenho. Que cresce, ao contrário do cabrão do cancro, previsivelmente, certamente, sem fazer mal; fazendo bem.
Meu grande amor: seja de que maneira for, continua. Mesmo deixando de gostar de mim. Mas continua. Vive!” 

9 comentários:

Kiki disse...

:')
No meio da merda que é o cancro, esta mulher tem uma sorte imensa por ser amada desta maneira! Que Deus não a tire ao seu Amor e que eles possam morrer bem velhinhos e juntos!

Duchess disse...

Por um lado parece que ainda custa mais por isso mesmo. Bolas, isto não devia acontecer a quem encontrou a sua metade, a quem é amado assim. Por outro lado, paradoxalmente, ainda bem que acontece a quem chegou a ser amado assim.

Mas é f#$% na mesma.

Full-time Mom disse...

Que doença maldita... Dia 31 deste mês faz 2 anos que levou uma prima minha de 35 anos, um tumor no cérebro inoperável... Num ano esqueceu quem era, quem amava, quem era a família, como falar. Telefonava-nos e ficava calada, e quando perguntávamos o que estava a fazer, se estava tudo bem, onde estava, etc. dizia "não sei". Uma tristeza... :( Bjs

sofia disse...

(Ai Duchess, puseste-me a chorar...)

Tânia (Mamã do Santiago) disse...

Olha ia escrever, mas nem sei bem o quê!Mais vale estar calada e ler este Amor ...

Mamã Petra disse...

Já tinha lido estas crónicas dele, e são de um amor inabalável, espero mesmo do fundo do coração que o amor vença o maldito cancro, porque ainda há milagres.

Beijinhos

Melancia disse...

Um amor destes não morre com nada! Vive para além da própria vida e faz as pessoa superarem-se na dor. Há muitos amores assim, mas há pouco quem os descreva como o MEC

sandra disse...

Não há palavras para o que o MIGUEL ESTEVES CARDOSO escreve
bjinhos

M.P. disse...

Apesar de todo o sofrimento deste casal, é maravilhoso ler-mos palavras tão apaixonadas e carregadas de amor!

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