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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Sobre o divórcio

Vou falar nisto na próxima formação que vou dar, já em Novembro. E este texto vai comigo, porque acho que não conseguiria nunca dizê-lo tão bem. É um murro no estômago em algumas partes mas o tema a isso o exige. Dá que pensar. O meu trabalho é ajudar as pessoas a ficarem juntas, a resolverem as suas questões, é criar objectivos de vida a dois, a três, a quatro... Mas por vezes não é possível e o meu trabalho passa a ser ajudá-las a separarem-se com dignidade, com amor próprio, com respeito por si e pelos outros. Não é fácil.



Quase todos os meus amigos já se divorciaram; alguns, mais do que uma vez. Uns dizem que é como morrer alguém próximo, há que fazer o luto, pelo menos dois anos. Tretas. Há quem saia de um divórcio cantando e rindo e quem sofra penas por longos e largos anos. Por vezes quem mais sofre foi quem o quis; e não por arrependimento, mas porque sim. Porque sem esperar se perde demais, e a esperança, insuflada pela noção de liberdade, só nos incute a ideia de ganhos. Um divórcio é doloroso; dói de facto como a morte de um ente querido; ou melhor, de uma vida querida que acarinhámos até se transformar num inferno ou num nada, num vazio. E tem momentos de volta atrás, se decorre de um casamento que, em tempos, até foi feliz. Temos que nos esforçar por nos mantermos nas partes más, se não estamos aqui e estamos no mesmo. Um divórcio provoca truques na nossa cabeça, que continua casada mesmo depois dos papéis assinados;  porque é uma cabeça que, para lá do desinteresse do corpo,  continua casada com a vida que tivemos, a única que conhecemos, e não com a pessoa em si. Muitas vezes, o outro  é o menos importante e o mais fácil de esquecer. O luto pode estender-se por anos; num lágrima a despropósito que corre pela cara  de  um filho, que só nós sabemos porque está lá, numa torneira por arranjar, numa ceia de Natal partida ao meio, numa viagem só para quatro, numa cama king size só para um. É  um processo de libertação e, ao mesmo tempo, de desconfiança. Interrogamo-nos muitas vezes para que serve a liberdade que ganhámos  - e que nos sabe tão bem – mas  desconfiamos do futuro, e se poderá alguma vez bater o passado, quando ainda era bom.  Um divórcio é um compasso de espera para os optimistas e uma experiência a não repetir, para os pessimistas. O acto de assinar os papéis é absolutamente simbólico; o que todos guardam é quando um deles  sai de casa de malas na mão, para não voltar. Consoante as situações, instala-se o vazio, o alívio ou o desespero. Às vezes, as três coisas juntas. Toda a casa nos lembra quem partiu, mesmo que tenhamos sido nós a desejar a partida (...quando vem o teu cheiro, dentro de um livro). A culpabilização é enorme, quando existem filhos, mesmo quando foi o outro a sacanear-nos por todos os meios. Os filhos de um divórcio, nos primeiros tempos,  são o fracasso a olhar-nos nos olhos, e esta impressão desvanece-se lentamente. Eu acredito que quando as pessoas se casam é porque se amam. E que, se se divorciam é porque se deixam de amar, apagando  nos filhos o selo de garantia que lhes estampámos quando nasceram: “Aqui está o fruto do nosso amor. Marca registada”. Dizem-me, vezes sem conta,  os miúdos adaptam-se, os meus estão óptimos, são os maiores amigos do meu novo companheiro, têm boas notas, nunca deram trabalho, não precisaram de psicólogo, eu e o meu ex damo-nos bem o que é bom para eles, gostam muito do novo irmãozinho. Mas, não esquecer: para eles, até em adultos, o pai era para ter ficado com a mãe e a mãe com o pai. Que tinham obrigação de se ter entendido. Por eles, que não pediram para vir ao mundo. A nossa sorte é que os nossos filhos gostam muito de nós, independentemente dos disparates que façamos, e fingem que se fartam só para verem em nós uma centelha da felicidade de que se lembram de quando os pais ainda eram casados, mesmo que estejamos com outras pessoas,  eternos estranhos para eles.

Controversa Maresia

20 comentários:

Maggie disse...

imagino que este texto seja uma grande verdade, e doi so de ler!

Bjo
Maggie

Full-time Mom disse...

Estamos numa época em que ninguém, ou muito pouca gente, se esforça para alimentar o amor, manter e fazer crescer um casamento. Hoje em dia tudo é descartável, já ninguém conserta nada. Estraga-se? Deita-se fora. Para mim, o casamento é uma contrução ao longo da vida que tem de ser todos os dias cuidada, alimentada, para o amor continuar a brilhar. :)

Jardim de Algodão Doce disse...

Meu Deus, que texto fantástico. Não há como ficar indiferente e como diz a Maggie, chega até a doer, pela nudez, pela frieza, pela verdade que acredito que assim seja.

Mary of Cold disse...

Já tinha lido este post há algum tempo. Fiquei angustiada...

Helena disse...

Não conhecendo esta realidade na primeira pessoa, acredito que esta é, talvez, a descrição mais verdadeira de uma situação de divórcio. Obrigado pela partilha deste texto que a todos faz (re)pensar, independentemente, da experiência de vida que possam ter.

Penelope disse...

Que verdadeiro este texto...
E mesmo assim que me sinto todos os dias, e a pior dor de todas e mesmo quando olho para as minhas filhas, quando vejo na mais nova uma sombra no olhar e eu sei a que se deve...

Ana disse...

Que texto fabuloso, não diria melhor. É isso que vejo nos rostos de quem me procura profissionalmente nesses momentos de ruptura. E vejo mais, vejo pior, vejo muitas uma faceta nunca antes revelada, escura, contraditória com todas as juras que se fizeram enquanto casados. Isso cansa-me. Isso deprime-me. E faz-me jurar, caso o meu amor não seja eterno, que um dia serei diferente da regra, porque já basta esse vazio, esse "não era para ser assim" de que o texto fala.

TERRA DE CORES disse...

Que verdades... que doem, mas esclarecem!

Nunca tendo passado por situações semelhantes de forma mto próxima, imagino que seja, tal e qual como está explicado no texto. E talvez mais...
Dependerá mto de pessoa p pessoa... mas há coisas q nunca mudam.
Obrigado por mais esta partilha. Temas intensos mas comos quais temos de lidar. E é tão bom vê-los pelos "olhos" do teu 4D!

Bjos gr

Graça disse...

Já passei por isto! Felizmente, sem filhos em comum!
Gostei imenso deste texto e concordo com todo o seu conteúdo.
É duro, é difícil, mas felizmente, ainda pertenço ao grupo dos optimistas e refiz a minha vida.
Quanto à questão da banalização de desistir de um casamento, da falta de empenhamento, da renovação do amor diário... isso tem muito que se lhe diga!!!

Beijinho Sofia ***

disse...

Ainda não sei como vai ser no longo prazo, mas a miscelânea de sentimentos por cá anda e sim não importa quem acabou nem porquê, doí sempre.

É bom sabermos que não estamos sós nesta fase, que outros já passaram por isto!

Beijinhos, Té

4D disse...

Não fazia ideia Té:(

beijinho enorme e estou aqui, se precisares.

Su Alves disse...

às vezes há murros no estomago que evitamos dar. tão engraçado como o comodismo e a rotina instalada são tão fortes e ganham sempre pontos na hora de fazer frente às situações e resolver os problemas seja para que lado for... para a continuação de um sonho ou projecto ou k nome bonitinho k lhe queiramos dar, ou se por outro não é melhor terminar com algo moribundo ou apenas vegetativo e onde nem os cuidados paliativos conseguem resolver já nada.
uma coisa é certa para mim: seja para que desfecho for, o passo mais importante é sempre a coragem. mudar é sempre um acto primitivo de coragem. e depois vem TUDO o resto. dificil, pois é.

beijinho

Teresa Martins disse...

Que texto fantástico!! Vou partilhar! bjs

Vchapéus disse...

Sou filha de pais divorciados e tenho de reconhecer que isso mudou radicalmente a minha vida familiar e emocional. Assisti a um divórcio litigioso de onde saímos (as 3 filhas) muito magoadas e desiludidas com um pai que não se importou de virar a família contra elas para ficar no lugar da vítima da situação, quando não soube dar o valor nem respeitar o casamento. Passados uns anos ainda não consigo encarar um pai que afinal não conhecia!

4D disse...

:(:(

Tão complicado:(

Beijinho grande

Só sedas disse...

Copiei o texto! Sabem o que é que mais me indigna num divórcio (e já falei com a Mum disso) é ouvir os adultos falarem dele. Felizmente (?) a pratica do divórcio em Portugal é recente por isso temos muitos "adultos divorciados" e poucos "filhos do divórcio" que foram ouvidos. Muitos deles porque ainda são pequenos, muitos outros porque já cresceram e sempre se lembraram de lhes amenizar o sofrimento com mimos porque partiram do principio que essa criança estava a sofrer mas nunca ninguém se dignou a falar cara a cara com essa criança nem nunca lhe perguntaram o que sentia sobre isso.

Desculpem mas estas conversas dão-me cá uma comichão... Nota-se muito que sou filha de pais divorciados? E já tinha 22 anos quando aconteceu. E não foi nenhuma surpresa (foi mais um alivio, a crónica de uma morte anunciada). E foi um divórcio "civilizado"... não chega. Irrita-me ver os adultos falarem do divórcio como se fosse uma coisa "deles" e eles é que percebem mas no fundo só sabem metade. A deles.

sophia disse...

É um tema (entre vários) do meu interesse. Ainda ponderei fazer essa formação, mas valores mais altos se levantaram. Talvez numa próxima oportunidade. ;)
Já agora (e peço desculpa por usar este meio para perguntar),quais os passos a seguir de modo a ser terapeuta familiar? Já pesquisei sobre o assunto mas a informação é escassa

4D disse...

sophia, envie-me um email para avidaa3d@gmail.com e nós falamos:)

Nini disse...

Nunca comentei, mas este texto hoje em particular acertou-me em cheio!!!

Cake Fashion disse...

Tendo vivido este texto na personagem de filha quando ainda era bem pequena, esta foi a ferida que cresceu comigo até hoje, já adulta e mãe.
Aquela divisão entre o "não conseguir perdoa-los" e o "fingir que nos fartamos" e sorrir só para que os 2 pensassem que estava tudo bem e ultrapassado.
Nunca está.

Adorei o texto. Obrigada!

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