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terça-feira, 18 de julho de 2017

Há dias em que devia sair vodka do teu chuveiro. Com morango. Ou manga. Ou até laranja. Tanto faz.


Há dias em que tudo corre mal, não há?
E os piores são aqueles imprevisíveis. Em que estás na tua, a desfrutar de uma vida normalzinha, vá, e de repente o céu parece cair-te em cima da cabeça.
E quantas vezes, em vez de arregaçares as mangas só te apetece vestir a tshirt velhinha de trazer por casa, aquela a dizer "Olá, sou miserável" e tapares-te até ao pescoço, fechares portas e correres as persianas até abaixo e esqueceres que a vida existe? Ou melhor; quantas vezes consegues pensar, depois de uma hetacombe,  "que se lixe"?
O problema é que sabes que a vida nunca se vai lixar. Se alguém tiver de se dar mal, esse alguém não há-de ser a vida, pois não? Queria dizer isto de uma forma mais fofinha e serena, mas não sei como. Somos nós que pagamos um preço bem alto por vivermos tudo com tanta intensidade. E isso não tende a melhorar.
E nesses dias, já para não falar dos outros, em que os pequenos ajustes do dia a dia te deixam com o corção a palpitar, a bater mais rápido...aqui simplesmente parece que te vai saltar do peito.
Porquê a mim? Porque é que tudo parece correr mal comigo? É o stress. Esse nosso grande inimigo. Pronto, é isso. Valerá a pena falar mais sobre algo que já usamos como palavra do dia a dia, como se fizessem parte de quem somos, da"la famiglia"?  Bem, tem de se falar. Porque quando começas a sentir isto todos os dias, ou quase todos os dias, por causa do trabalho, por causa da relação com o marido, por causa dos filhos, por causa da falta de tempo, por causa das mil  quinhentas e quatro decisões que tens de tomar quase de seguida...o stress passa a ser crónico e nunca mais te vai largar, por mais que o queiras dar- lhe um grande chute no traseiro. Esse stress mata, deixa sequelas irreversíveis, dá cabo de quem és ou querias ser, da tua auto-estima. Claro que temos sempre a hipótese de ignorar os efeitos desta "pessoinha" miserável  e mesquinha e continuar a viver como se ela não existisse. Mas até quando vamos conseguir aguentar? Se for de quando em vez ainda é possível. Todos os dias? Nem pensar.
O stress pode acabar connosco e é importante que se fale nisto. Porque a medicação não chega para resolver tudo. Embora ajude, se bem administrada, nas doses certas e não para toda a vida.
E se calhar, pode parecer estranho ou até já é algo bastante batido, o stress não existe de facto. Sim, há muitas pessoas que conseguiram e conseguem, efectivamente, passar por aquilo que passamos e lidar razoalvelmente bem com isso, sem o tal Mr Monster, the Stress a atrapalhar.
Isso significa que, depois de tanta coisa, ele não existe? No fundo, a verdade é que não são os factos em sim que são stressantes, mas a forma como os encaramos, como lidamos com eles.
Bem, nem tudo. Há coisas que acontecem porque acontecem e fariam doer a qualquer pessoa, e fariam sentir raiva e o coração com a sensação de que acabou de correr a maratona  de Lisboa, Londres ou Sevilha. Porque é a chamada causa efeito.
Mas no stres há qualquer coisa entre a causa e o efeito, que são as nossas cognições, as interpretações que colocamos naquilo que acontece.
Se formos chamados à escola do nosso filho porque ele faltou às aulas, se batermos com o carro, se a nossa chefe nos ligar a ameaçar que podemos estar quase a ser despedidas...isto só deixa uma mossa valente porque são coisas com as quais nós nos importamos, que mexem connosco, que põem a nossa cabeça num virote a pensar no que vai ou não acontecer a seguir e, quase sempre, a pensar nas piores consequências e na falta de forças e capacidades para lidar com tanta coisa junta. Sem isso não há stress.
O stress aparece da forma como nós lemos e lidamos com os acontecimentos com que nos vamos deparando na vida. São as nossas vozes interiores e a forma como olhamos as coisas que causam a ansiedade, nunca o acontecimento per se. E, mais uma coisa, obviamente que não o fazemos conscientemente. O mais certo e provável e que não nos damos conta é que todo este processo acontece dentro de nós,  que dificulta muito mais as resolução dos problemas porque dificilmente conseguimos pôr a voz da razão a falar mais alto. A voz da razão que ajuda que um problema só seja um problema dentro da nossa cabeça. Mudando a música ou banda sonora que vem nesse momento aos nossos ouvidos, e que muitas vezes custa a desaparecer, tudo muda.
Se queremos mudar a nossa forma de viver temos de deixar de pensar que o stress faz parte do dia a dia da vida moderna.
Quem não se sentiu stressado nos últimos dias ou nas últimas semanas (e já estou a ser condescendente. Devia dizer últimas horas?)? Quem não sentiu medo?
Mais facilmente dizemos que sentimos stress do que sentimos medo, mas no fundo as duas vêm de mãos dadas.
Até o stress que sinto de ter obras no prédio todo o santo dia é uma forma camuflada de ter medo de não conseguir trabalhar em casa, de descansar o suficiente, de estar em paz com os meus filhos. O stress que sinto quando vejo os meus filhos a brigar é o medo que tenho de não me sentir uma boa mãe ou o medo da falta de tempo para eles. E podíamos continuar assim eternamente.
Algum stress é positivo, alguma ansiedade faz com que nos preocupemos e decidamos ser melhores. Mas calma. É preciso meter medo ao medo e dizer que nos estamos a borrifar para uma série de coisas, que somos mais fortes do que isso. Das primeiras vezes vai parecer falso e vai apetecer desistir. Aos poucos vamos sentindo que o coração já não nos quer sair pela boca e que tudo tem, mesmo,  uma solução.
Que a vida não está para nos lixar, que isso é feio demais e não fica bem dizê-lo num texto tão elegante.  A vida está cá para nos para nos pôr à prova. E somos nós que escolhemos a banda sonora, os argumentos, as discussões, o guião...o medo...que passa ou não passa nessa altura pela nossa cabeça. Aliás, pelo nosso corpo todo.
Afinal como diria muita gente, segundo a internet (desculpem, mas não encontrei o verdadeiro autor da frase), para todos os problemas há uma solução. E parar de viver com medo parece-me uma bastante adequada. Tal como aprender a ter a sensação que controlamos o que nos acontece e que não é precisamente ao contrário.  E que facilmente perdemos o controlo sempre que algo mexe connosco.
Se nunca mais vamos sentir medo? Vamos. Se vamos sentir que  perde o controlo de vez em quando não é normal? É.  Se o stress não vai ganhar algumas batalhas? Vai. Que o stress é causado pela forma como nós pensamos e não pelos outros? É verdade.   Mas se não vivermos obcecados com isso a vida ganha um novo sentido. É uma verdadeira mudança de foco. Uma mesmo grande. Talvez a maior proeza seja deixares de sentir que não és uma vítima, a vítima da tua própria vida.  Sentires-te uma vítima é perderes todo o poder que tens dentro de ti. É perderes a força, a auto-estima e até o auto-conceito - saberes quem és e/ou a ideia que tens de ti próprio.
E aproveita para ensinares com palavras, mas principalmente com exemplos, tudo isto aos teus filhos.
E tira um tempo para ti, vai espairecer, beber o tal vodka porque, tal como o céu parece que nos vai cair em cima da cabeça, mas não vai, o vodka nunca sairá pelo chuveiro e te resolverá a vida. A isso cabe-te a ti. Tira a t-shirt, arranja-te, vai beber um copo (que um não mata, nem te fará cair em desgraça) - parece que a bebida da moda já nem sequer é o gin, mas Porto branco com água tónica - e começa a arranjar estratégias para seres feliz.

1 comentário:

Viola Cárdenas disse...

"É preciso meter medo ao medo..." Adorei essa frase! Como sempre, muito bom texto, muito bons conselhos. Vou ter que experimentar esse Porto com tónica... Pessoalmente, gosto mais do Tawny mas nao nos podemos fechar a novas experiências... :)

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