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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Auto-mutilação - pensar naquilo que não queremos pensar



Sei que amo o que faço quando vibro por poder ir saber o que colegas andam a fazer, por poder conhecer e dar a conhecer aos alunos modalidades terapêuticas, espaços terapêuticos, problemas psicológicos que ainda desconhecem.

Hoje fomos ao famoso VillaRamadas e estivemos a falar de auto-mutilação, com um testemunho extraordinário.



A automutilação consiste em infligir sofrimento físico através de facas, tesouras, pontas de cigarro e outros elementos de tortura, aplicando cortes e queimaduras no próprio corpo, a fim de que essa dor possa, de algum modo, mitigar o tormento de que a parte psicológica está a padecer. A angústia e a sensação de vazio, de incompletude apresentam-se de tal forma acutilantes que as pessoas que se automutilam acham que só mesmo um sofrimento maior para apagar outro que não sabem gerir.

Embora se trate de agressividade dirigida para o próprio, e portanto de um comportamento suicida, o objectivo da automutilação não é o suicídio, mas a relativização da dor psicológica e emocional. Há, todavia, o perigo real das consequências de um corte feito com mais profundidade numa zona perigosa, até porque, a dada altura, os indivíduos que recorrem a tal “anestésico doloroso” deixam de sentir dor. Em acréscimo, este micro-suicídio pode, com a continuidade da frustração de não ser capaz de resolver os problemas, conduzir mesmo ao suicídio.

Na base da automutilação está uma auto-estima muito fraca e a crença de que se merece sofrer, mais do que morrer. A punição física é disto um sinal. Ao contrário do que se possa pensar, contudo, os doentes não a levam a cabo para se exibir. De facto, eles procuram áreas do corpo mais cobertas – pernas, barriga – e outras, como os braços e os pulsos, são tapadas com mangas compridas para ocultar as cicatrizes. Paralelamente, os actos são praticados no quarto e na casa de banho, longe dos olhares de terceiros.

Há uma vertente da automutilação em que as inscrições no corpo funcionam como factores de identificação no seio de um grupo, confundindo-se sofrimento e estética. A scarification é uma cicatriz assemelhada a uma tatuagem, só que executada com um bisturi. O branding, igualmente doloroso, carimba a pele com um ferro quente, como se faz com o gado.

Existem, neste repertório de autodestruição, diversas maneiras de aceder a um alívio temporário, a uma breve distanciação, da amargura da alma. E apesar de as estatísticas apontarem uma diminuição do número de suicídios, há indicadores de risco que estão a aumentar, como é o caso dos para-suicídios, ou seja as auto-agressões. Estima-se que se chegue a tomar conhecimento de apenas uma em cada quatro situações desta natureza.

É vulgar que a patologia da automutilação apareça em concomitância com distúrbios alimentares, o que acrescenta importância à atenção dispensada por pais, educadores, familiares e amigos. Saber detectar os sinais de alerta é passível de fazer a diferença entre a vida e a morte. Os doentes procuram esconder os cortes e queimaduras enquanto podem – alguns durante vários anos –, como um segredo que lhes confere poder, controlo. A questão é que tudo isto é ilusório e existem saídas para uma doença que desafia a morte em cada golpe, em cada gesto de extinção da sua própria pessoa.




Os pais têm de estar atentos a estes comportamentos:
a) Costuma usar roupas de mangas longas, mesmo no verão, com altas temperaturas;
b) Apresentam várias cicatrizes ou lesões repetidas e tem dificuldade para explicá-las;
c) Isola-se evitando situações onde seu corpo pode ser exposto, como praia ou piscina;
Vale lembrar que estas pessoas podem apresentar sintomas depressivos e de fobia social associados.




Num estudo realizado em Portugal, no âmbito da Organização Mundial de Saúde, e que foi apresentado em Lisboa, em abril de 2011, concluiu-se que, numa amostra de 5050 adolescentes, com uma média de 14 anos, 15,6% referem "ter-se magoado de propósito nos últimos 12 meses, mais do que uma vez".

2 comentários:

Bê. disse...

Era para mim um sonho, entrar em Psicologia e trabalhar no Vila Ramadas. Adorei o texto. :)

Adriana Bento disse...

Obrigada pela experiência, foi extraordinária.
Adorei conhecer o centro de Vila Ramadas, que só conhecia por causa da comunicação social, neste caso a tv. Foi deveras gratificante para todos nós. *

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